Friday, January 14, 2005

A reincarnação vista pelo “ocidente”

«Se eu acreditasse na reincarnação, suicidava-me quase todos os dias.»

Este post do Ivan d’A Praia chocou-me um bocado. Mas não quero entrar por aí. Não tendo noção do contexto e, principalmente, não tendo nada a ver com isso, não faz sentido nenhum estar a comentá-lo.
Queria só chamar a atenção para a divergência de interpretações que este post põe a nu. Para os hindus ou budistas, a libertação ocorrerá precisamente com o final do ciclo de reincarnações. Estas são encaradas como um castigo; são a punição – mais ou menos severa (que depois se traduz no sistema de castas) – pela incapacidade de se alcançar na vida anterior a realidade última, a plenitude.
Ao ser introduzido no “ocidente” *, este conceito sofreu uma alteração, paganizou-se e passou progressivamente a significar uma nova oportunidade de vida. Ao contrário das religiões orientais, tem uma conotação francamente positiva – simboliza uma espécie de possibilidade de redenção, de voltar atrás e corrigir o que está mal e, porventura, o que se fez de mal.
Poder-se-á dizer que, mesmo não sendo encarado como um castigo mas sim como oportunidade, o objectivo será provavelmente o mesmo: acabar com as reincarnações assim que se alcance a perfeição. O enfoque é, porém, totalmente distinto: no primeiro caso, a perfeição atinge-se com a união ao transcendente; no segundo, o desejo é que a perfeição se atinja na vida terrena. E aqui reside toda a diferença.

* Pareço o Vasco Pulido Valente e a sua “Europa” entre aspas.

Blog zapping (V)

«Há pessoas que são simpáticas demais para poderem ser credíveis. O eterno sofá onde sentam Deus e o diabo. O templo pode estar a abarrotar de vendilhões que ninguém há-de expulsá-los. O tilintar das moedas já entrou no ritmo dos cânticos.
Bom é que ao conhecer alguém lhe avistemos as boas maneiras e o cabo do chicote. Ficam mais bem feitas as apresentações.»

[Tiago Cavaco, Há pessoas]

Blog zapping (IV)

«Raramente percebemos que a porta está mal fechada. O som da porta mal fechada não é evidente. Só muito mais tarde percebemos esse ruído impertinente. A porta ficou mal fechada. Mas agora queres fechar bem a porta ou abrir de novo a porta?»

[Pedro Mexia, A porta fechada]

Thursday, January 13, 2005

Conversas da treta

- Eu sei que tu és ingénua, acreditas que o Natal é quando o homem quiser, toda a gente é infinitamente boa, o amor pode ser para sempre…
- Esta conversa vai ter um fim?
- Vai. Quando é que estás a pensar desfazer a decoração de Natal?

Wednesday, January 12, 2005

Blog zapping (III)

«É possível a dois amantes nunca dançar um com o outro ou não gostar de o fazer ou nunca correr bem quando o tentam e serem bons na cama. É: mas e enquanto casal?»

[Rui Branco, A dançar é que a gente se entende]

Blog zapping (II)

«Ninguém substitui ninguém: há apenas uma serena continuidade, sem drama e sem tumulto. Como tem de ser. Rituais insuportáveis tornam-se obrigações suportáveis, amigáveis, quase desejáveis. Quase. E quando a noite chega, a mesa é cheia: de presentes, do presente. E do passado: um passado de silêncio que se intromete nas conversas. Ninguém diz nada. O silêncio diz tudo. E depois regressam as conversas.
Leio prosa publicada. Ninguém parece gostar do Natal. Eu gosto. Comecei tarde, eu sei. Mas também sei que, numa vida tão breve e tão precária que apenas temos por empréstimo, começar tarde é nada quando o importante é começar bem.»

[João Pereira Coutinho, Natal: começar bem]

Tuesday, January 11, 2005

Já se esteve mais longe

O Sudão começou bem o ano novo. O acordo final entre o governo e o Movimento de Libertação Popular do Sudão, que põe fim a uma guerra intermitente desde a independência, foi finalmente assinado.
O número de processos de paz já iniciados pesa na história deste país mas nunca se tinha chegado tão longe. E como o Sudão era, até agora, palco de duas guerras civis distintas embora interligadas entre si, resta esperar que esta «janela de oportunidade» dê lugar a mais uma, no Darfur. Sem surpresas, o conteúdo das negociações não deverá ser muito diferente: o desarmamento, a questão da autonomia e a abertura da oligarquia de Cartum à partilha de poder e das riquezas do território aos outros grupos nacionais têm sido, desde sempre, as cedências essenciais para uma paz duradoura.

Monday, January 10, 2005

Blog zapping (I)

When we were first dating, I told him
"You were talking in your sleep last night
and I listened, just to make sure you didn't
call out anyone else's name." My future-husband said
that he couldn't be held responsible for his subconscious,
which worried me, which made me think his dreams
were full of blond vixens in rabbit-fur bikinis.
but he said no, he dreamt mostly about boulders
and the ocean and volcanoes, dangerous weather
he witnessed but could do nothing to stop.
And I said, "I dream only of you,"
which was romantic and silly and untrue.


Denise Duhamel, Sex with a Famous Poet (via Abrupto)

[The Consequences of Wife-Swapping With a Giant também mereceu a minha atenção. E um sorriso, confesso.]

Do que eu mais gosto na blogosfera (II)

Estar rodeada de gente brilhante. Tão de perto. À distância de um blog zapping.

Sunday, January 09, 2005


No Sri Lanka, os casais de namorados sentam-se nos bancos de jardim ou passeiam-se à beira-mar sempre protegidos por um guarda-sol - para esconder os beijos, trocados a medo e com pudor, dos olhares de quem não tem lugar na fotografia.

Sentimentos contraditórios



Duas semanas depois da catástrofe no sudeste asiático recebo a notícia de que o hotel onde fiquei por uma semana, na costa leste do Sri Lanka, desapareceu por completo, assim como o amável casal que nos acolheu.
Passei um mês no Sri Lanka, a trabalho, assim que foi decretado o cessar-fogo. Percorri várias das zonas que mais sofreram com o recente desastre natural e onde, na altura, ainda se estranhava ver estrangeiros, depois de anos infindáveis de guerra civil – em especial no nordeste do país, o bastião do LTTE.
Chocada e revoltada já tinha ficado, por ver o trabalho de décadas desfeito num abrir e fechar de olhos. Hoje, inexplicavelmente, foi diferente. Embora desgostosa, ao folhear os meus álbuns, senti-me privilegiada. Acho que por poder recordar algo que a grande maioria das pessoas, que vê as imagens que nos entram casa a dentro há duas semanas, não conheceu: fotografias que, como diz o Francisco, têm muito pouco a ver com a desgraça visível actualmente; caras que, apesar da extrema pobreza, transmitem uma esperança no futuro do país invejável. Uma esperança que virá de novo ao de cima, quero crer.

PS – Os dois locais mais atingidos pelo tsunami foram a província de Aceh e a ilha do Sri Lanka. Ambos sofriam uma guerra civil de longos anos. Dá vontade de dizer que há povos que não têm mesmo sorte.

Saturday, January 08, 2005

Jantar de gajas em noite de bola

[ou Confirmando o estereótipo do maradona]
- Pensei em jantarmos cá em casa e vermos o jogo. Que tal?
- Boa. Pizzas e cerveja?
- Naaaa. A J. cozinha um belo jantar e eu abro uma das boas garrafas de vinho que tenho cá em casa.

[jantar a cheirar bem e a sair do forno, vinho já nos copos, aperitivos na mesa]

- Põe lá no jogo. Deve estar mesmo a começar.
- Em que canal é que vai dar?
- Na Sport TV.
- Er… como na Sport TV?
- Tu tens Sport TV, não tens? Diz-me que sim.
- Er… não. Oops.
- E agora?
- Ouve-se o relato?
- Que deprimente.
- Põe-se baixinho, só para ouvir os golos.
- Deixa-me dizer-te que tens um jeito para combinares jantares em tua casa em noite de jogo…

[conversa bastante agradável e relato como som de fundo, quase imperceptível]

- Goooooooooooooooooooo [De quem, de quem?] oooooooooooooooooooo [Não sei, não ouvi. Põe mais alto.] loooooooooooooooooooo [Diz Benfica, diz Benfica.] oooooooooooooooooooo [Despacha-te lá, chato.] Do Sportiiiiiiiiiiiiiiiiiiiing!

- Oh, bolas!
- Liga-se a televisão e muda-se para a novela?
- Yeap.

O Brad Pitt e a Jennifer Aniston anunciaram a sua separação



Bruno, if I were you I would start wondering how far your powers can go…

Friday, January 07, 2005

A vingança é um prato que se come… quente, delicioso e regado de um bom vinho

Paragem no Porto, na volta. Assim de improviso.
Jantar no D’Oliva Al Forno - ...hummm... - e muito bem acompanhada.
Só para não me obrigarem a ter uma viagem destas e ainda se ficarem a rir.

Viagem do Inferno

[dez minutos de espera]
Porcaria do comboio que nunca mais chega. E com o frio que está.
Bem, para ser justa, nem sequer me posso queixar porque a maior parte das vezes agradeço que se atrase senão ficava em terra. Deve estar mesmo a aparecer por aí.

[trinta minutos depois]
Linha interrompida. Isto vai demorar. Logo hoje que tenho reunião fora.

[quarenta e cinco minutos depois]
A sala de espera está cheia, sem um único lugar, e cheira mal. E eu cá fora ao frio. Já não sinto os pés.

[uma hora depois]
Estou na mesma página do jornal há sei lá quanto tempo. Recuso-me a tirar as mãos dos bolsos.

[uma hora e meia depois]
Isto é tortura. Só me apetece voltar para a minha cama. Nem sequer cheguei a sentir-lhe o gosto. Para variar, só dormi uma hora para conseguir acabar a apresentação. Mesmo vazia, nunca me pareceu tão atraente.

[uma hora e quarenta e cinco minutos depois]
Escusavam de dizer de dez em dez minutos que o comboio está atrasado sem dar mais informações relativamente à sua chegada. Fico toda empolgada cada vez que ouço «Informamos que o Alfa pendular…», estico-me toda para ver se o vejo, para, logo de seguida, me resignar ao frio e a um trocar de pernas.

[duas horas depois]
Dói-me o rabo de estar aqui sentada. Não tarda prevejo que a cabeça descaia sobre o ombro do rapaz ao meu lado que não conheço de lado nenhum.

[duas horas e quinze minutos depois]
É uma miragem; não, é um suburbano; não, parece mais um regional; não, é ele, é o Alfa para Braga.
Alívio; frio esquecido; rabo dolorido sarado que não sou de guardar rancores.

[no tão esperado comboio]
Juntaram os dois últimos Alfas num só. Isto não augura nada de bom.
Não, minha senhora, não estou enganada. Não é a carruagem 5, lugar 56? Pois. Eu peço desculpa de a estar a incomodar mas esse é de facto o meu lugar e, como vê, o comboio está cheio, senão não me importaria de trocar consigo. Ai as costas, ai a espondilose [é a patroa da menina?*]. Já não tenho idade para andar assim de um lado para o outro, daqui não saio. Claro, nem tem que sair. Onde está a minha educação? Eu sou jovem e a senhora alega a idade e a dificuldade de circulação - embora pareça consideravelmente nova, convenhamos. A senhora tem mesmo é que se sentar no primeiro lugar que encontra porque não lhe apetece procurar o seu. E eu tenho mais é que calar, pedir desculpa e ir procurar outro.
Estou quase, quase a dar em doida.

[à chegada ao Porto]
«Lamentamos informar que o Alfa com destino a Braga termina hoje, excepcionalmente, por aqui. Queira prosseguir a viagem no autocarro que se encontra no exterior, no largo da estação.»
Ah… só para terminar em beleza.

* Reminiscências de quando o Herman ainda estava no seu melhor.

Thursday, January 06, 2005

Por falar em "lealdade orgânica"

«Pessoalmente, estou farto das histórias do Dr. Cavaco Silva. Eu, se fosse a Direcção Nacional do PSD, punha mesmo os cartazes e o Dr. Cavaco Silva das duas uma: ou metia o PSD em Tribunal ou desfiliava-se do PSD, e também era um descanso para a gente, aqui, na Madeira.»

Declarações de Alberto João Jardim – claro – sobre a recusa do ex-PM em ter a sua fotografia nos outdoors da campanha eleitoral.

Tuesday, January 04, 2005

«Não batam mais no ceguinho»

Foi o que me ocorreu assim que li que Cavaco Silva tinha recusado a sua fotografia no dito cartaz e, logo de seguida, ouvi o “sermão televisivo” de Pôncio Monteiro.
Parece que a oposição está de férias para ficar.

[Tenho as minhas suspeitas que o Pacheco Pereira não terá pensado exactamente o mesmo que eu.]

Sunday, January 02, 2005

E, com um homem assim, esta tonta passa o filme todo «oh Ashley, Ashley». Era um par de estalos, não era, Joana?


This is what you were meant for. None of the fools you've ever known has kissed you like this, has he?

Saturday, January 01, 2005

E no primeiro dia do ano

Ligo a televisão quando chego a casa e está a dar aquele filme.



There's one thing I do know, and that is that I love you, Scarlett. In spite of you and me and the whole silly world going to pieces around us, I love you.