«Alida Valli estive quase para a conhecer, em 1982, em Ponte de Lima, outro nome que lhe convinha. Era suposto contracenar com ela em Aspern Papers de Eduardo de Gregório e, no papel de um médico, fechar-lhe os olhos e confirmar-lhe o óbito. Nem eu a matei, nem ela morreu. A nossa hora ainda não tinha chegado. Para ela, chegou agora, como soube pelos jornais. Nascida a 31 de Maio de 1921, ia fazer 85 anos no fim do mês que amanhã começa. E um dia, leitores, saberão que a própria idade, mesmo quando muito citada, custa menos do que imaginá-la, a quem sempre vimos ou veremos com vinte ou trinta e tais anos.»
[João Bénard da Costa,
Público, «La Valli», 30.04.2006]
Tenho que confessar que ler os artigos do Bénard da Costa é, para mim, um momento melindroso. Há algo de particularmente incómodo na evidência da impressionante quantidade de actores, actrizes, realizadores e filmes que são por ele relembrados com tal veneração e me passam completamente ao lado. A consciência da minha vasta ignorância explica a minha incerta relação com cada um dos seus artigos. Umas vezes, deslumbrada; noutras, irrecuperavelmente perdida. Umas vezes, interessada em indagar o insondável (pais e internet são fontes a que vou recorrendo); noutras, dou-me por vencida e «declaro que desisto». Mas quase invariavelmente encontro pequenas pérolas, como esta, que valem muito a pena o desconforto.
[Não me apetece muito pronunciar-me sobre o tema “Bénard da Costa e a Cinemateca”. O reconhecimento de um belo trabalho é mais do que merecido. Tudo o resto me soa demasiado a uma aristocracia cultural que Portugal gosta de cultivar. Além disso, insubstituíveis, para mim, só no meu coração.]